segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

na lavandaria self-service





Um homem nos 70 anos, barba branca, razoavelmente vestido, chapéu na cabeça, fumava um cigarro à entrada da lavandaria.

Máquinas de lavar vazias, as de secar ocupadas.

Esperei que uma ficasse vaga.

Acabado o cigarro, o homem sentou-se no banco ao lado de um homem de nacionalidade brasileira.

Enquanto a esposa tirava a roupa, o homem mais velho, que se apresentou como pedinte, pergunta ao brasileiro se  tem alguma roupa que possa dar.

-Um kispo, umas calças. Você tem estrutura como a minha, a sua roupa deve servir-me.

Outro dia, esteve aqui um homem a quem pedi roupa,  disse que ia trazer, fiquei  à espera e não apareceu.

Eu durmo na rua, tenho as minhas coisas guardadas, mas preciso de mais roupa.

O brasileiro dizia que ia ver o que tinha em casa, que se tivesse alguma coisa lhe daria.

- Ah, mas não se esqueça. Vou estar aqui a descansar um bocado, fico à espera de si. A que horas passa aqui?

O outro dizia que ia ver, que se tivesse passaria lá por volta das três horas.

- Veja, lá. Não faça como o outro que nunca mais apareceu.

E insistia na conversa.

Depois de a esposa pôr a roupa nos vários sacos, o jovem brasileiro levantou-se, pegou nos sacos, e quando se preparavam para sair, o mais velho insistiu:

- Não se esqueça. Vou estar aqui à sua espera.

A lavandaria tem uma máquina de café, outra de bebidas e sandes.

Uns minutos depois, tirava a minha roupa da máquina e pergunta-me ele:

- A senhora não me paga uma sande? Tenho fome e ainda não comi nada.

Olhei para ele e respondi que tinha levado algumas moedas ( o que era verdade) para  meter na máquina, não tinha dinheiro que chegasse para lhe pagar a sande.

Ele não comentou mais nada.

Entretanto, procurei o contacto da lavandaria, queria ligar ou enviar um email. 
Um espaço pequeno, onde vão os alunos da escola secundária da zona e ficam por lá a comer e beber, deixam  o espaço sujo. E o chão com pó acumulado, percebe-se que ninguém lá vai limpar.

Neste curto espaço de tempo, entrou outro homem, que não me apercebi, se não fosse o mais velho perguntar:  

- Não me quer pagar uma sande?

O outro não respondeu. Só vi uma mão levantar e fazer o gesto de não.

Saí da lavandaria.

O homem não me pareceu ser um sem abrigo.

Acredito que seja uma pessoa que procure tomar as refeições numa Cáritas, ou outra associação de apoio.

A ser verdade que é um mendigo, se tivesse o dinheiro para a sande, não sei se pagaria.

Dar-lhe-ia um euro.

Não gostei da forma como se dirigiu às pessoas.

Não mostrou ser uma pessoa humilde.


imagem daqui





2 comentários:

O último fecha a porta disse...

É sempre um pouco constrangedor quando estamos na nossa rotina e somos confrontados com esses "pedidos". Percebo perfeitamente o que sentiu e claro que há outras formas de pedir ajuda.

cantinho disse...

Ainda não me habituei à caixa de comentários deste blog, não reparei que tinha o seu e de mais pessoas que ambos conhecemos.
Boa semana

dia do beijo

 Trouxe do meu cantinho do Sapo blogs Foto de um dos trabalhos de Almada Negreiros  Exposição no Museu Soares dos Reis, 2018